sábado, 16 de junho de 2012

"Canta" - No alto daquela Serra

(Arouca) - No passado, a canta, também designada por cantada ou cantiga, definia uma prática performativa muito comum no Concelho de Arouca, onde a agricultura constituía uma atividade central das populações locais.

As tarefas agrícolas que implicavam a presença de muitos participantes, como as que estavam associadas ao cultivo do milho, do linho, ou do vinho, propiciavam momentos de encontro coletivo onde se reuniam, por vezes, cerca de 20 a 30 pessoas.

O canto, sobretudo nas atividades que não implicavam um esforço físico muito intenso, constituíam um modo de comunhão solidária entre os participantes que assim partilhavam repertório e também o construíam improvisando. As histórias que as cantas contam, são também, argumentos mais do que suficientes para transformar o trabalho mais difícil, em tarefas menos duras.

De característica bastante mordaz, por vezes até malicioso, sempre escondido por um segundo sentido das palavras e das frases, as cantas eram também formas de divertimento sobretudo entre as mulheres.

Atualmente, pode-se encontrar as cantas em diversas situações, tanto nos grupos folclóricos, como  nas desfolhadas coletivas realizadas nas freguesias, como lembrança de um passado agrícola mais pujante, manual e colectivo.

A flexibilidade na execução do cantar, reflecte-se fundamentalmente no modo como as vozes podem ou não se acrescentar à melodia principal que mantem-se de forma mais estática, independente dos seus intérpretes. O acto de acrescentar vozes progressivamente mais agúdas em relação à voz inicial, designa-se por "botar".

As vozes que "botam" não são previamente combinadas. É normalmente durante a performance do primeiro intérprete, que começam a entrar os outros cantadores, deixando de ser uma música de uma voz (uníssona), para cantas de duas ou três vozes.

A ausência de refrão é também uma característica comum à maioria das cantas, sendo recorrente a técnica de iniciar as estrofes repescando o último verso da estrofe anterior.

Para ilustrar esta postagem, fica uma gravação efetuada no Centro Cultural de Rossas, no dia 5 de março de 2005. É uma canta de autoria desconhecida, realizada pelas seguintes senhoras: Maria Emília Brandão, Cristalina Ribeiro, Luciana Gomes, Emília Rodrigues, Carla Almeida e Maria Emília Gomes. Para ouvir, basta encontrar a música no tocador ao lado. Abaixo segue a estrofe:

No alto daquela serra
Está lá um lenço, está lá um lenço de mil cores.
Está dizendo viva, viva-ai
Morra quem, morra quem não tem amores.

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